Desabafo
É lamentável observar a evolução da nossa sociedade – se é que podemos chamar isso de evolução. Não é necessária uma análise longa e profunda para notar as falhas, as rachaduras, os indícios de que as coisas estão ficando cada vez piores. Não é de se espantar que, cada vez mais, as pessoas tenham necessidade de terapia, que os consultórios psicológicos estejam lotados e que problemas como uso de drogas e o isolamento social tenham se tornado tão comuns.
A começar pela própria família. Vivemos em uma época em que reina o egoísmo, em que os pais estão ocupados demais com seus próprios problemas para dar assistência a seus filhos. As crianças crescem desamparadas, perdidas, sem saber em que se apoiar. Há muito tempo os pais deixaram de ser heróis. Ao invés disso, cada vez mais as crianças têm suportado problemas dentro de casa, ouvido e agüentado discussões que não cabem a elas. E quando é sua vez de falar, de se expor, não há ninguém para ouvir.
Depois vem a escola. O lugar em que a capacidade, o talento e as idéias inovadoras deveriam ser explorados, se torna uma máquina de repressão. Não apenas por parte dos professores e da direção, mas também por culpa dos próprios colegas, que vivem os mesmos problemas e não sabem como lidar com eles. Nas escolas, há três problemas principais:
Primeiramente, os professores – que antes eram chamados educadores, mas que hoje já não lhes cabe mais este título -, assim como os pais, estão ocupados demais em sua própria vida para dar atenção às crianças e aos adolescentes. O único assunto que lhes convém é horário de aula, matéria e nota. Qualquer questão pessoal é ignorada. É mais fácil fechar os olhos.
Há também a questão da própria distribuição das crianças nas salas de aula. Ali é sugada toda a idéia de ser humano, os jovens se tornam números na chamada. 40, 50 alunos nas salas, é gente demais para prestar atenção. Os professores não sabem sequer os nomes de todo mundo, quanto mais o que se passa com cada um.
E, por último, vem a questão do relacionamento entre os próprios jovens. Não há espaço para ser diferente, o jovem tem que se adaptar, de uma forma ou de outra. Há uma massificação da personalidade. Ou ele se torna igual a todos os outros, ou é deixado de lado. Aliás, ser deixado de lado seria uma opção até melhor, comparada à violência – física e moral - sofrida com o bullying. Quando chega a este ponto, a cabeça do jovem já está completamente destruída.
Mas não para por aí. Termina-se a escola e chega o momento de optar por uma faculdade, mas o que fazer? Onde está a preparação que o jovem não recebeu em casa ou na própria escola? Cada um é jogado à própria sorte, ninguém quer se preocupar, se ocupar com os problemas dos outros. E, mais uma vez, ele se vê perdido.
Na faculdade também não é muito diferente. Engana-se quem pensa que as pessoas são mais humanas quando chegam lá. Ali também é o extremo: ou o jovem se adapta e passa a competir com seus colegas – na verdade, a competição é ainda maior -, ou é deixado completamente de lado. Com os professores, a situação também piora. É cada um por si.
É mentira dizer que isso só acontece em famílias de baixa renda e instituições de ensino da rede pública. Está em todo lugar, é nisso que a sociedade moderna se transformou. O egoísmo, o egocentrismo não deixou espaço para nada mais. As pessoas são estimuladas a desistir de suas próprias idéias e seguir o restante.
Como foi dito anteriormente, não é necessária uma análise muito profunda para que se chegue a esta conclusão. A sujeira está por todos os lados. O ser humano tem se transformado em números ou, em uma metáfora um pouco pobre, em carneirinhos. Uma pessoa segura o cajado e determina aonde o restante deve seguir e, de cabeça baixa e sem contestar, ele obedece.
Um exemplo dessa massificação que está bastante presente no cotidiano é a música. Na rádio só toca a mesma coisa, os jovens escutam as mesmas coisas e, se um deles discorda, é logo deixado de lado ou julgado careta. Se a rádio passar a tocar outro tipo música, eles também passam a ouvir outro tipo. Como se fosse muito difícil descobrir músicas boas por conta própria. É mais fácil ouvir aquilo que já lhe é imposto.
Dessa forma, acontece em várias outras circunstâncias. Poderiam ser citadas aqui questões políticas – da falta de ideologia das pessoas, que preferem aceitar o que está sendo feito do que se mobilizar para fazer mudanças -, religiosas, sócio-culturais etc. O homem se tornou um ser preguiçoso para pensar, até mesmo para lutar por seus desejos. Ele passou a aceitar o desejo dos outros.
E quando se pensa diferente, o que acontece? Sem saber como e para quem expor suas idéias, muitas vezes os jovens se tornam marginalizados. Marginalizados pela própria sociedade. Sem ter voz em casa, na escola, na faculdade ou em qualquer outro lugar, eles partem em busca de compreensão, de atenção, de encontrar um espaço para eles no mundo. Buscam um lugar onde possam se expressar, se revelar. E muitas vezes acabam encontrando este espaço no meio das drogas, como foi muito bem relatado no livro “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída…”.
Mas não é apenas isso, há muitos jovens que, ao invés de sair em busca do seu espaço, acabam se fechando dentro de si mesmos. Se tornam introspectivos, desenvolvem problemas psicológicos, como depressão, bulimia, anorexia, enquanto tentam se encaixar no padrão criado pela sociedade. Ao perceber que não há lugar para eles no mundo, eles decidem simplesmente isolar-se. Suas idéias não são aceitas, não são estimuladas, então acabam optando por ficar calados.
É preciso parar de observar estes problemas como se eles estivessem presentes em outro lugar. Eles estão aí, a cada esquina, ao redor de todo mundo. Eles estão presentes nesta sociedade que muitos se orgulham de falar que fazem parte. É preciso abrir os olhos e buscar meios de ajudar pais e filhos a se tornarem mais humanos.
Não basta jogar a culpa na política, como muitos gostam de fazer. O problema não está no sistema, mas, sim, no que o comanda. O problema está dentro de cada ser humano. Não basta dizer que o governo deveria se ocupar disso e fechar os olhos para sua própria família, para seu vizinho, para a pessoa que se senta ao seu lado na sala de aula. Embora seja um pensamento utópico, o único modo de fazer as coisas começarem a dar certo é uma transformação completa das pessoas. É a mobilização de todo mundo para começar a fazer diferente, a se importar mais, a ser um pouquinho mais humano.
Lívia Magalhães





